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Na casa de Zaqueu

Para Zaqueu ver Jesus teria sido mais do que suficiente. Mas as suas expectativas foram superadas quando o Mestre lhe pediu para alojar-se em sua casa. Há maior alegria do que receber o próprio Deus em casa?

COMO SE FOSSE UM FILME23/11/2020

Uma cena do Evangelho que é fácil imaginar como se fosse um filme é o encontro de Jesus Cristo com Zaqueu, na cidade de Jericó (cfr. Lc 19, 1-9). Mal o Senhor cruzou as portas de entrada da cidade, correu a voz: “É o Mestre! Já chegou!”. Todos desejavam vê-lo e ouvi-lo. Além das pessoas modestas do povo, havia um homem importante, chamado Zaqueu, que também desejava conhecer a Jesus. São Lucas o retrata com grande realismo: era rico e chefe de publicanos, pelo que podemos imaginar que não gozava de muita estima, pois por seu ofício colaborava com as autoridades invasoras na cobrança dos impostos. O evangelista menciona ainda um detalhe sobre o seu aspecto físico: era de baixa estatura. Zaqueu queria ver Jesus, mas por sua altura não conseguia encontrar um lugar no meio da multidão que rodeava o Mestre para poder vê-lo.

O desejo de Deus

Normalmente Zaqueu deveria manter as aparências de acordo com seu cargo, mas para ver Jesus, não hesita em fazer algo que sem dúvida seria considerado ridículo. Corre, passa à frente da comitiva e sobe a uma árvore. É grande o seu desejo de conhecer o Mestre. Não está disposto a deixar-se vencer pelas dificuldades. Está disposto inclusive a sacrificar sua própria respeitabilidade; a ser visto correndo agitado, subir a uma árvore e espiar entre os ramos. O seu interesse em ver Jesus vai além da curiosidade humana; o que Zaqueu procura, de modo mais ou menos consciente, é a verdade. Procura, antes de qualquer outra coisa, a verdade sobre a sua própria vida.

Jesus, chegando a esse lugar, “olhou para cima e disse: ‘Zaqueu, desce depressa! Hoje eu devo ficar na tua casa’” (Lc 19,5). Este encontro de olhares deve ter sido um momento inesquecível. Já não era simplesmente ver o Mestre da árvore, como um objeto de estudo, mas um olhar-se mutuamente. Entre os que acompanhavam Jesus, talvez alguém tivesse sido irônico sobre a atitude daquele personagem: “Olhem, este é Zaqueu, o chefe dos publicanos, subindo a uma árvore”. Mas Zaqueu não se importa com o que os outros pensam. Sente-se olhado por Jesus. Não tem medo de que o Senhor veja o interior de sua alma. É o início da sua conversão. Zaqueu, então, é uma alma que quer fazer oração: olhar para si mesmo através dos olhos misericordiosos de Jesus.

A expectativa de Zaqueu tinha sido superada. Ver o Mestre teria sido mais do suficiente, mas nunca teria imaginado que Jesus se detivesse, o olhasse nos olhos e pronunciasse o seu próprio nome. A felicidade vai ainda mais além: pede-lhe alojamento em sua casa! Outro sinal de que Jesus não se deixa ganhar em generosidade. Conhece o anseio perseverante de Zaqueu por vê-lo e por isso Ele mesmo se deixa ver: olha-o, chama-o e diz que quer entrar em sua casa. Jesus contenta-se com o desejo sincero de uma alma por procurá-lo, para aproximar-se dela: “Onde está teu desejo de Deus? Porque a fé é isso: ter o desejo de achar a Deus, de o encontrar, de estar com Ele, de ser feliz com Ele”[1].

Recebeu Jesus em sua casa

A resposta de Zaqueu ao pedido de Jesus não se fez esperar. São Lucas conta que “desceu depressa, e o recebeu com alegria” (Lc 19,6). O ambiente de alegria, fruto da presença do Senhor tão intensamente procurada, causa felicidade.

Jesus fez então algo mal visto por alguns judeus da época: entrar na casa de um chefe de publicanos. As primeiras críticas não se fizeram esperar: “todos começaram a murmurar, dizendo: ‘Foi hospedar-se na casa de um pecador!’” (Lc 19,7). Mas Jesus não se incomoda com os preconceitos sociais. A sua única preocupação são as almas, e é isso que vê em Zaqueu: uma alma que é preciso salvar, uma alma com desejo de conhecer a verdade.

Quanto Zaqueu se esmeraria em acolher o Senhor! Teria as manifestações de respeito e de agradecimento que ajudam a criar um ambiente de cordialidade e de regozijo. Também estaria atento às palavras que o Mestre pronunciava. E isso porque só quem busca a verdade é capaz de aceitar os ensinamentos do Senhor e conferi-los com a sua vida. À medida que a conversa avançava, Zaqueu sentia um profundo agradecimento a Jesus por ter querido entrar em sua casa e estar iluminando a sua vida.

Tão clara é a verdade, tão amável tinha sido o Senhor por ter-se dignado entrar em sua casa, inclusive sem que ele o pedisse, que Zaqueu sente em seu interior uma profunda sacudida. É o momento da conversão. E, nesse ambiente de alegria, declara: “Senhor, a metade dos meus bens darei aos pobres, e se prejudiquei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (Lc 19,8).

Uma conversão sem cálculos

Ninguém lhe tinha pedido um ato de generosidade tão grande. Decide isso porque quer. Não se sente coagido: é ele que toma livremente esta decisão. Não acha que está fazendo algo de que não gostaria realmente. Ele, habituado a fazer cálculos econômicos, não fica em mesquinharias porque não se sente na obrigação de responder a um pedido, mas decide simplesmente tomar uma iniciativa. E o que decide não lhe parece heroico, porque está admirado com a bondade do Senhor e, portanto, tudo lhe parece pouco. Não se propõe, em suma, dar algo, mas dar-se, porque o que decidiu é amar, quer dizer, corresponder ao amor do Senhor. Zaqueu, mais do que ser generoso, começou simplesmente a viver de amor.

“Livremente, sem coação alguma, porque me vem na gana, eu me decido por Deus. E comprometo-me a servir, a converter a minha existência numa doação aos outros, por amor ao meu Senhor Jesus”[2]. É evidente que uma ação desta natureza só se pode realizar se for com alegria: Zaqueu o faz porque está contente, agradecido e admirado, e fazê-lo o enche de felicidade. Com razão se disse que a alegria “não é uma virtude distinta da caridade, mas, um ato ou efeito da caridade”[3]. Por isso, saber-nos livres para amar “leva-nos a experimentar na alma a alegria e com ela o bom humor”[4]. Quem escolheu entregar-se está alegre: “A palavra ‘feliz’ ou ‘ bem-aventurado’, passa a ser sinônimo de ‘santo’, porque expressa que a pessoa que é fiel a Deus e vive a sua Palavra alcança, na entrega de si, a verdadeira felicidade”[5].

Acaba de ouvir-se a surpreendente declaração do chefe dos publicanos. Trata-se de algo que ninguém lhe pediu. Vai além do que seria o seu dever estrito. Talvez algum dos comensais pensasse que o que ele acaba de dizer não corresponde à lógica humana. Nós conhecemos apenas a resposta de Jesus. O Evangelho limita-se a trazer as palavras do Senhor: “Jesus lhe disse: ‘Hoje entrou a salvação nesta casa, pois este também é filho de Abraão’”.

A alegria de alegrar o Senhor

A resposta do Senhor não foi a constatação fria de um fato. Jesus é verdadeiro homem e como tal tem sentimentos. Os Evangelhos os mostram várias vezes: compadece-se da multidão que está como ovelhas sem pastor (cfr. Mt 9, 36), indigna-se diante dos mercadores que negociam no templo (cfr. Jo 2, 14.17), sente compaixão pela desgraça da viúva que perdeu o único filho (cfr. Lc 7, 11-17), emociona-se diante daquela outra que lança no cofre do templo suas duas moedas (cfr. Mc 12, 41-44), chora a morte do seu amigo Lázaro (cfr. Jo 11, 35) e se surpreende diante das maravilhas que seu Pai realiza.

Nesta ocasião, Jesus deve ter-se comovido profundamente. O Senhor viu a mudança de vida de Zaqueu e a sua generosidade, mas viu também como o Espírito Santo havia atuado na alma desse pecador. Se Zaqueu foi capaz de formular tal propósito, é porque o Paráclito o inspirou. Jesus vê a maravilha da ação divina que estimula e ajuda o homem, respeitando a sua natureza livre. A iniciativa parece ser do homem, que decide converter-se, mas na realidade a chamada divina é prévia à conversão; esse trabalho silencioso do Espírito Santo na alma de Zaqueu, que o leva a subir na árvore, tinha começado antes.

Jesus, que vê tudo isso, alegra-se muito. Devem ter notado em seu rosto, no timbre de sua voz, em seus olhos que brilhavam de emoção. E Zaqueu percebeu isso. À alegria de ter visto Jesus, de tê-lo ouvido, de ter comprovado que o levava em consideração ao ponto de entrar em sua casa, soma-se agora a alegria de ter sido capaz de alegrar o Senhor. Alegrar a Deus feliz e alegrar-se com Deus: o que mais podemos querer?

Eduardo Baura // Foto: Luke Porter (Unsplash)

[1] Francisco, Homilia em Santa Marta, 12/03/2018.

[2] Amigos de Deus, n. 35.

[3] São Tomás de Aquino, Summa Theologiae, II-II, q.28, a.4.

[4]F. Ocáriz, Carta pastoral, 9/01/2018, n. 6.

[5] Francisco, Ex. Ap. Gaudete et exultate, n. 64.

Evangelho

Como se fosse um filme


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