PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO

Panegírico pronunciado pelo Reverendíssimo Padre Salesiano Luiz Ignácio Bordignon Fernandes (1921-2006), por ocasião da Ação Litúrgica da “PAIXÃO E MORTE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO”, Sexta-Feira Santa, dia 18/04/2003, às 15h00, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, em Araras, SP (Brasil).

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO!

Caríssimos,

“Um dia, na festa do céu, iremos compreender melhor o sentido da morte de Cristo para nossa salvação”. Contemplemos a cruz da qual pendeu a salvação do mundo.

Fala-se muito, hoje, da Nova Evangelização para a Igreja no terceiro milênio.

Afinal, o que é essa nova evangelização senão a educação da fé?! E o que se requer para a educação da fé senão os conhecimentos dos princípios que vão justificar o porquê da própria crença?!

Pois bem, o conhecimento desses princípios está justamente no conhecimento de Jesus Cristo, Verbo Encarnado, Filho de Deus e de Maria, caminho, verdade e vida, consagrado eternamente por Deus para ser na história a Luz do mundo e o Sal da terra para toda a humanidade.

Como luz do mundo, Ele veio para confirmar a grandeza da nossa criação original de imagem e semelhança com Deus; veio anunciar a sublimidade do nosso destino, a plenitude da vida na felicidade do céu para qual fomos criados; e veio para ensinar, como único interpretante da Lei, o caminho para chegar lá, qual seja, a prática do amor ao próximo por amor a Deus.

E como sal da terra, Jesus Cristo quis morrer na cruz para nos redimir da podridão do pecado, e assim, nessa manifestação de amor, reafirmar a nossa grandeza de origem.

Mas que grandeza é essa que nós não vemos, perguntaria alguém!...

Vejamos: O ser humano, filosoficamente falando, é uma criatura racional, composta de alma e corpo. E, enquanto vivemos neste mundo, a alma, princípio de todo conhecimento, age através do corpo, e o corpo através dos sentidos: da vista, do olfato, do gosto, da audição e do tato. Portanto, o que vemos no espelho, na realidade, não somos nós, mas apenas o nosso eu corpóreo, refletindo por todos os lados, as imperfeições de uma natureza decaída pelo pecado de origem. O nosso eu espiritual criado à imagem de Deus, somente o veremos depois da morte.

Meu irmão, Jesus Cristo com esse seu trágico modo de ser escolhido por Deus, lhe quer indicar a sua realidade de imagem d’Ele. Essa imagem de Jesus crucificado é o poema da nossa grandeza, é a sabedoria de Deus por ser a maneira mais sensível que se pôde usar para dizer que cada um de nós, perante Deus, vale mais que toda a riqueza do mundo; que cada um de nós, perante Deus, vale tanto quanto a humanidade inteira, pois, se fosse somente um de nós que estivesse no mundo, Jesus Cristo teria dado a vida do mesmo jeito. Ora, Jesus Cristo não iria dar a vida por nós se nós não valêssemos assim. Se Ele deu a vida por você, meu irmão, é porque você vale muito; e você vale muito justamente porque você foi criado à imagem divina, com destino à plenitude da vida.

Pois bem, essa sua grandeza de criação você não vê, nem sente neste mundo, mas somente no outro, quando, liberto pela morte, abrir-se-ão para você as cortinas da eternidade. “A vida para quem acredita não é passageira ilusão, pois a morte se torna bendita porque é a nossa libertação”.

Na verdade, é naquele último e supremo momento, quando nossos olhos e ouvidos se fecharem para a natureza e o burburinho deste mundo, abrir-se-ão os sentidos da alma para ouvir e sentir as melodias que os anjos e os santos cantam para animar o festim em homenagem às núpcias do “Cordeiro”. É nesse momento então que vamos ver e sentir a beleza, a paz e o encanto do céu.

É por conseguinte agora que quem acreditou em Jesus Cristo e se esforçou para cumprir as suas palavras, vai ser a beleza do seu anjo da guarda que o acompanhou em todos os momentos da vida desde a sua concepção, nove meses antes de nascer. É então agora que ele vai contemplar o semblante bonito de Nossa Senhora, coroada rainha do céu. É agora que ele vai conhecer o esplendor de Jesus Cristo ressuscitado que morreu na cruz por nós. É finalmente agora que quem acreditou em Jesus Cristo e se esforçou para cumprir as suas palavras, vai ver a sublimidade e o esplendor de Deus, e em Deus, vai ver pela primeira vez, a própria grandeza e sentir a paz por ter sido criado à sua imagem com destino à plenitude da vida, onde ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, porque nesse festim de paz e amor Deus brilhará na fronte do bem-aventurado com a luz da eternidade.

Pois bem, meus irmãos, foi por essa grandeza da nossa criação que Jesus Cristo, Filho de Deus de Maria, morreu na cruz por nós.

Conclusão: “É somente na festa do céu que iremos compreender melhor o sentido da morte de Cristo para nossa salvação”.

Por enquanto devemos viver pela fé na sua mensagem.

E qual é o exemplo fiel dessa mensagem senão a Virgem imaculada e silenciosa, Mãe de Deus e Senhora nossa, aquela que acreditou e, porque acreditou, tornou-se a Senhora das dores; e porque Senhora das dores tornou-se a Senhora da glória e Rainha do céu.

Quem quiser me seguir, tome a cruz de cada dia, venha e me siga: Maria, mais que essa cruz que o mundo leva, sentiu a espada misteriosa da dor no seu imaculado coração de mãe.

Meus irmãos, o sofrimento é um mistério. Por que Maria, a criatura humana mais linda e mais Santa que existiu no mundo chegou a ser a Senhora das dores? Por que os santos sofreram, e alguns deles, o martírio?! Por que há crianças que sofrem tanto que algumas morrem até mesmo antes de nascer?!

O sofrimento é realmente um mistério! Mas se o sofrimento é um mistério, as palavras de Jesus Cristo são claras: quem sofre comigo neste mundo, comigo no outro vai ter a plenitude da vida.

Se é verdade que pelo princípio de lei natural nós devemos fugir do sofrimento, não é menos verdade que enquanto o sofrimento não foge de nós, o nosso recurso cristão é seguir o exemplo de Jesus Cristo quando, no Horto da Oliveiras, pressentindo os horrores da cruz, suando sangue rezava a Deus: “Pai, se for possível, afasta de mim este cálice de sofrimento!... mas seja feita a sua vontade”. Se assim, nesses momentos de dor nada mais então nos resta senão pedir àquela que foi a Senhora das dores na terra e agora a Senhora da glória no céu, qual “Onipotência Suplicante”, rogue a Deus por nós para que, vivendo na esperança do céu, levemos na fé a cruz do nosso sofrer.

“A certeza que vive em mim é que um dia verei a Deus; contemplá-lo com os olhos meus, é a felicidade sem fim”. Portanto é também somente no céu que vamos entender o porquê do nosso sofrimento.

E o texto continua: “Contemplemos a cruz da qual pendeu a salvação do mundo”.

Minha gente, a contemplação da cruz não é para chorar pelo Crucificado, mas para nos alegrarmos pela grandeza da nossa criação, pela sublimidade do nosso destino, e chorar sim, e chorar muito, pelos nossos pecados.

E para que essa contemplação seja perene na nossa vida, nossa mãe nos ensinou desde a idade de criancinha a nos traçar o sinal da cruz e a Igreja o proclama no começo e no fim de toda sua liturgia.

E o povo que ainda reza também canta: “Bendito e louvado seja do céu a divina luz; e nós também cá na terra, louvemos a Santa Cruz”.

Pois é, minha gente, que o formato da cruz traçado por Deus no espaço da “Criação” e colocado bem juntinho ao lema de “ordem e progresso” da nossa bandeira não fique somente na arte do enfeite; que o sinal que continuamos traçando da testa ao peito, do ombro esquerdo ao direito não seja sofisma de nossa crença, mas, a moldura de uma razão que crê e de um coração que ama como Cristo amou, e possamos assim qual Maria, a Senhora das dores, compreender e sentir o preço da nossa redenção, compreender e sentir na festa do céu a nossa grandeza de imagem de Deus, e por isso mesmo, a importância da nossa Redenção.

LOUVADO SEJA NOSSO SENHOR JESUS CRISTO!

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Fonte: USINA DE LETRAS (usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=20273&cat=Artigos).

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“Fora da VERDADE não há CARIDADE nem, muito menos, SALVAÇÃO!” (Luiz Roberto Turatti).