Tertuliano de Cartago. A oração em espírito e verdade 1. Nossa oração é hóstia espiritual que aboliu os sacrifícios precedentes (cf. 1Pd 2,5; Hb 13,15). Com efeito, disse Deus: "Que me importam os …More
Tertuliano de Cartago.

A oração em espírito e verdade

1. Nossa oração é hóstia espiritual que aboliu os sacrifícios precedentes (cf. 1Pd 2,5; Hb 13,15). Com efeito, disse Deus: "Que me importam os vossos sacrifícios todos? Estou enjoado dos vossos holocaustos de carneiros e não quero a gordura dos cordeiros nem o sangue dos touros e dos bodes. Quem, aliás, pediu tais coisas das vossas mãos?" (Is 1,11-12).

2. O Evangelho nos ensina o que Deus exige de nós: "Virá a hora em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Deus, de fato, é espírito" (Jo 4,23-24), e portanto, deseja tais adoradores.

3. Somos nós os verdadeiros adoradores e os verdadeiros sacerdotes (cf. Ap 1,6; 5,10; 20,6) porque oramos em espírito (cf 1Cor 14,15; Ef 6,18), e oferecemos a Deus nossa oração como um sacrifício que lhe agrada, que ele aceita, a hóstia que ele previamente pediu e escolheu.

4. Esta é a hóstia a levarmos ao altar de Deus, consagrada de todo o coração, alimentada pela fé, adornada pela verdade, íntegra pela inocência, pura pela castidade, coroada pela caridade, com um séquito de boas ações, entre salmos e hinos. Por ela, obteremos tudo da parte de Deus

- Eficácia da oração

1. À oração em espírito e na verdade, que poderá Deus negar, se é ele mesmo que a exige? Nós lemos, ouvimos dizer e cremos, com inúmeras provas da sua eficácia! Outrora, a oraçao libertara do fogo (cf. Dn 3,25-30), das feras (cf. Dn 6,17-25) e da fome (cf Dn 14,37) e, no entanto, ainda não recebera do Cristo a forma devida. Entretanto, quanto mais eficaz é a oração cristã! Ela não faz descer o anjo que proporciona orvalho ao meio das chamas (cf. Dn 3,49-50), nem fecha a boca dos leões, nem leva aos famintos o alimento de camponeses (cf. Dn 14,33-39). Ela não nos dá a graça de não sentirmos o sofrimento, no entanto, confere a força da paciência aos que sofrem, se afligem, experimentam a dor. Com essa força, ela aumenta a graça, a fim de que os crentes saibam o que esperar do Senhor, conscientes de sofrerem por seu nome.

2. Além disso, outrora a oração pedia flagelos (cf. Ex 7,10), desbaratava exércitos inimigos (cf. Ex 17, 8-15), impedia chuvas benéficas (cf. 1 Rs 17,1). Agora, porém, a oração dos justos afasta a ira de Deus, põe-se em vigílias pelos inimigos, suplica pelos perseguidores. É, acaso, de admirar, que faça descer águas do céu a oração que pôde obter chamas de fogo (cf. 2Rs 1, 10-14)? Só a oração consegue vencer a Deus, mas Cristo não quis que ela fizesse mal, e lhe conferiu plena eficácia para o bem. Por isso, de nada ele quis saber senão de fazer voltar à vida as almas dos mortos, que já caminhavam pela estrada da morte, de devolver forças aos fracos, de curar doentes, de purificar possessos, de abrir portas dos cárceres e quebrar cadeias dos inocentes. É ainda essa oração que lava os pecados, repele as tentações, extingue as perseguições, dá coragem aos covardes, alegra os fortes, conduz à casa os peregrinos, acalma as ondas do mar, faz medo aos malfeitores, alimenta os pobres, governa os ricos, levanta os que caíram, mantém firmes os que vacilam, conserva os que estão de pé.

3. A oração é o baluarte da fé, nela temos as armas e os dardos contra o inimigo que nos espreita de todos os lados. Assim, pois, jamais andemos desprevenidos. De dia, lembremo-nos de estar de prontidão; à noite, recordemo-nos das vigílias. Guardemos com as armas da oração a bandeira do nosso imperador, e orando esperemos a trombeta do anjo.

4. Oram também todos os anjos, oram todas as criaturas, oram os rebanhos e as feras que dobram os joelhos. Quando saem dos estábulos e tocas, olham para o alto, levantam a cabeça e não fecham a boca, mas gritam, fazendo vibrar o ar, cada qual conforme a sua natureza. Até as aves despertam, elevam-se para o céu, asas abertas - mãos estendidas - uma cruz. Qualquer coisa sussurram. Seria oração. Que mais dizer sobre o dever da oração? O próprio Senhor também orou. A ele, glória e poder pelos séculos dos séculos!

- Tertuliano de Cartago